sábado, 12 de junho de 2010

Uma vida em minhas mãos

Considero crucial sempre expandir nossa compreensão sobre o funcionamento da vida, do universo, em todos os níveis possíveis. Percebo que quanto mais aprendemos sobre os mecanismos de uma área vemos similares aplicações noutras, como se existisse um padrão sistêmico, como se houvessem algumas leis que se aplicam a todos os tipos de ambientes, vertebrados ou em seu estado mineral.

E meus pensamentos sempre acabam visitando o assunto vida, a sua importância pela complexa estrutura entregue para ser administrada de forma a gerar entendimento e, ao mesmo tempo, da sua irrelevância quando considerada apenas como curta escola na interminável jornada da evolução.

Entendendo a vida dessa forma, é mais fácil tomar algumas decisões que outros vêem como complicadas demais.

Mas como ela nos prega peças...

Antes de me deitar para um sono de poucas horas na casa do meu irmão Edgar, escuto o bater das asas e colisões no estreito corredor do quintal. Saio e vejo no chão pequena ave, pousada como que em repouso no ninho. Aproximo-me com a intenção de capturá-la e ela, logicamente, se afasta tentando, sem sucesso, levantar vôo. Encurralo a pequena criatura e sem demora a envolvo nas mãos.

O que fazer com o bicho? Meu primeiro pensamento: agora está muito tarde para ajudá-lo. Preciso dormir. Então vou mantê-lo na casa, aquecido, e amanhã busco uma solução. Mas sou impedido pelo anfitrião. Sugere-me soltar a ave, e ao abrir as mãos no estacionamento para libertá-la, nada de se mexer. Acho que gostou do calor e da sensação de segurança proporcionados pelas mãos do, inicialmente, aparente predador.

Como meu coração se sentiu sinucado ao ver a inocente figura, pequeno ser, frágil, totalmente à mercê de minhas decisões mais ou menos sábias! Minha vontade ainda era de manter o bichano comigo para liberá-lo ao estar preparado, mas meu irmão me lembrou sobre as sábias e frias leis da natureza e me incentivava a entregar meu coleguinha ao seu habitat natural.

Lá vou eu pela segunda vez abrir, literalmente, as mãos de um ideal “inocente” e expôr o visitante a uma vida sem fundo musical. Novamente, para minha alegria, o bicho se nega a ir. Então me ocorre de deixá-lo aninhado nos meus tênis na parte externa da casa. Pelo menos passaria a noite seguro e aquecido. Mas um brusco agachamento assusta o jovem columbídeo e ele consegue, no espaço aberto da rua, encontrar altura num vôo que se perdeu no escuro da noite.

Confesso que fiquei tranqüilo por não mais depender de mim aquela vida, ao mesmo tempo que me questionei: o quanto estou preparado para tomar decisões ainda mais importantes do que essa? Daí me indigno com mais propriedade e questiono a falta de sensibilidade que permite ao algoz aplicar golpes mortais em inocentes e indefesas criaturas para alimentar-se de sua carne e utilizar de seus restos para outros fins, quando a delicadeza de seus olhares nos penetram a alma com a lembrança de nossos próximos e amados animais de estimação.

Para finalizar este texto, menciono frase de sábio homem que veio ao mundo para nos mostrar um caminho alternativo:

“A grandeza de uma nação pode ser julgada pelo modo que seus animais são tratados”. Mahatma Gandhi

Com carinho,
Daniel

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